sábado, 15 de novembro de 2014

arranhar a superfície névoa
como quem quer trepar
neste muro que divide o limiar do dia
e decola.

ele cede - vai abrindo de par em par
seus desfeitos
e na respiração mais dilatada
encosta seu desejo,
o aquieta se é possível.

mas se não for
o inconcílio escuta a realidade de sons
isolados
as coisas postas de fio a pavio
as outras mais circundantes que antes
o corpo mais pernas que pedra

então, vão se desfiando em muitas linhas
o cansaço e as pálpebras
teus anseios e os meus
formando agora uma muralha
que nenhum salto alcança.

risca o outro lado,
para ver se acende,
mas ninguém sabe
como este fogo se ateia
como se aprende o desprevenido

ou amassa involuntariedades.

terça-feira, 1 de julho de 2014





Vertical a Cortázar/Duchamp

\piolines/que cruzanyenredan tu cielo rojoazul
tu tarde de pocas voces y algunas hojas.
No sé si de tanto ver esta altura cortada
tu mirada se adelantó en travesías.

Hay algo de sumamente abandonado en estas paredes blanco sucio
llenas de gente
de desórdenes que tejen el paisaje

Y como se pueden romper
y como casi ensucian la retina

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Nunca tuvo novio, pobrecita



Le drame de la machine célibataire n'est pas celui d'être qui vit totalement seul, - c'est le conflit de deux passions érotiques qui se juxtaposent et s'exaspèrent sans pouvoir parvenir au point de fusion
                                                                   
                                               Michel Carrouges, Les machines célibataires


Y los naipes son tan escasos, que por menor equivocación, pierden la partida

                                                                 Roberto Arlt, Secretos femeninos


           
El carácter polifronte de todo texto es su potencia de variación y fuga. Roce que precede el ansia de fusión, nunca cumplido.

Celibatario lenguaje, tu prisión es la de la soledad. No total, ya diría Carrouges, sino la que sirve de pretexto para el flirteo y la seducción. Hay palabras que ya no se usan o se usan con desprecio y miedo, exasperación es una de ellas. Ansia otra.

Me acuerdo de que hace mucho en la facultad, una profesora me dijo que había que sustituir las palabras ansia y totalidad, no habría que amenazar, por tan débil equívoco, los pilares del pensamiento contemporáneo. Algún tiempo después me enamoraría de las virtudes de lo fragmentario en sus mil versiones teóricas. Y sin embargo, me hacía falta la unidad, aunque fuera como ansia.


Y ya no se puede ansiar, ni fusionar, ni mucho menos exasperar. Contra toda contención, muchas cosas me exasperan, la censura impuesta a todo sentimentalismo, cierta higiene textual, la afectación del que lee buscando un error.

sábado, 11 de maio de 2013

Mini-ensaio sobre o azul



                                                                  Ninguém esgota o azul e seus enigmas.

                                                                     Murilo Mendes


        Minha primeira impressão do Rio foi a intensidade da luz. O olhar, sempre um pouco perturbado pela irradiação exacerbada, dava a todo contorno expressa nitidez, a toda película, viva cor. Profusão do azul que submete qualquer tom a sua completa assunção. Mar, horizonte, céu. Enigma para o contraste, desafio a água-forte. 
       Mas para mim, diferente de Murilo, não havia no azul tanto mistério. Aqui, aliás, o que me incomodava justamente era a “explicitez” de seus gestos, certo escracho carioca estava intimamente relacionado a sua cromática abertura, a voracidade de seus horizontes. Rio, tão dado em linhas e céus, eu nunca soube acolher bem a gratuidade da tua oferta. É como aquela pessoa muito simpática que você costuma encontrar por aí, nas suas ruas, e que, no oferecimento e abertura exagerada do sorriso, desaponta. A gente não sabe bem o que dizer e, no fundo ou superfície, se pergunta o que lhe traz tão cativa simpatia. Não se demora em se descobrir que tudo é jogo de cena. 
      Mas sob a luz, talvez a nitidez, alguma perda cromática me inquiete. De um azul muito insistente, dado pela imensidão do céu e sua baia, tua aquarela aquática silenciava muitos ais. Há de se perguntar quando este azul turva, se nele prevalece o claro ou se, por acaso, se deixa encarnizar em marinho. Certamente o azul enigma de Murilo turvava em abissais. 
      Luz de lá que descolava as coisas do que nelas podia se imaginar concreta e as deixavam soltas, mais leves, "Até a tristeza da gente era mais bela e além disso se via da janela..." Virtudes do solto, colar de pedregulhos, a rolar...

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Cajitas

Siempre me gustaron los pequeños cofres, los sécretaires, con o sin doble fondo, todo aquello que pueda cerrarse con llave, es decir, que sirva para esconder algo, para almacenar la insondable reserva de la ensoñación. Su marca principal es el cerrojo que, siendo, en sí mismo, un umbral, protege un reino interior, fabricado y custodiado sin pausa. Algo absoluto se preserva en estas maravillas de la ebanistería. Algo que siempre es más de lo que parece porque, en la noche del mueble, imaginar es siempre más grande que vivir.

Jean-Pierre Richard justificó el asombro alegando que "es imposible llegar al fondo de un cofre" porque la dimensión íntima es siempre infinita, siempre incontenible. Yo agregaría que, en esos objetos antiguos como moradas sensibles, se puede manipular el sueño hasta hacerle destilar su relato: eso que se esfuma, siempre, en cuanto es nombrado. Toda cajita, en este sentido, es un viaje: una añoranza del origen del habla y un esfuerzo por permanecer lo más cerca posible de la escena vacía del ser.

Figurante humilde y receptiva, teatro itinerante y archivo portátil, en suma, la cajita es también diminuta divina comedia, donde lo plural humano deja de ser -por un instante eterno, entre la vida y la muerte- un inventario de acciones para volverse penumbra, laboratorio atento a lo que no se ve.

Importancia suplementaria de las cajas: allí se guarda el muerto (pues el ataúd es una caja). La frase figura en los Diarios, de Alejandra Pizarnik.

Maria Negroni in: Pequeño mundo ilustrado

sábado, 30 de julho de 2011


Flor-esperança ameaçada por um sopro.
Tudo é ar quando se teme ou redime.
Mas o menino nem olha o que detém,

anjo distraído,
não antevê a catásfrofe
nem mira o passado estarrecido

O que olha este anjo não está no olhar
nem aqui nem acolá
além olhar, além janela, além tela,
o que revela?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Glosando a Arlt


I

"Y ahora volvamos al jorobadito para deslindar responsabilidades".

Achar um culpado, o erro, o crime. O autor da calúnia, a face do mal. Arlt arma a cena, aponta o dedo, dispara. Sustenta sua armadilha, fibras de uma linguagem arcaica, mal falada, bufona. O humor, não de riso, mas de uma fina ironia, alfineta aqui e ali uma ferida aberta, como se circundasse a miséria humana, num trabalho de bordea-la com a linguagem, dizendo-a com todas as palavras, como "quien camina así, entre hombres y mujeres, percibiendo los furores que encrespaban sus instintos y los deseos que envaraban sus intenciones, sorprendiendo siempre en las laterales luces de la pupila , en el temblor de los vértices de los labios y en el erizamiento casi invisible de la piel de los párpados, lo que anhelaban, retenían o sufrían. Y jamás estuve más solo que entonces...
De todas as solidões, a que assoma na hora da descoberta do mal é singular. Tomo meu direito ocidental de pensar o mal, embora saiba que ele é tão escorregadio e reversível quanto o bem. Me lembro claramente o assombro e a solidão do engano, da falsidade. E se é bem verdade que a dor é inomeável, mas ainda é a solidão que a prossegue. Assim estão os personagens de Arlt. Não só porque caminham numa cidade, lugar do anonimato. Não só porque esta cidade está povoada de indiferenças e imigrantes. Mas também porque esta cidade entranha a desconfiança, esta forma tão alta de alienação e ruptura com o mundo. É ela capaz de azedar o caráter e tornar corruptível qualquer forma de amor. Me imagino quão só deve haver sido aquele que nos narra, tão só quanto nós quando descubrimos a mentira.
Mas este mesmo solitário, o qual nem sequer sabemos o nome, este que perde as ilusões e se espanta ante a maldade de um aleijado, este mesmo homem é capaz de estrangulá-lo.
É capaz de argumentar a seu favor, de fazer-nos rir da maldade.

Quem odeia el jorobadito? Sua maldade é tão disforme, grotesca e escandalosa que provoca o riso, uma simpatia. Sua insolência é tão aguda, que passa a nos divertir, quase não a sofremos.

“Y es que todos llevamos adentro um aburrimiento horrible, uma mala palabra retenida, um golpe que no sabe dónde descargarse y si el Relojero la desencuarna a puntapiés a su mujer, es porque en la noche sucia de su pieza, el alma envasa um dolor que es como desazón de un nervio en un diente podrido (...)”

Aqui tudo é contrário ao dissímulo. Se houver uma verdade, a dele fabrica o excesso como uma lente através da qual se vê o desvio, o equívoco, a mesma falta que nos persegue a todos. Porque o erro é o passo certo, a língua tosca se alimenta e é produzida por aquele que não sabe por onde entrar no mundo letrado. Arlt cultiva o vexame linguístico como arma de destituição literária. A resitência às convenções deste mundo começam na construção de uma língua hiper-corregida, uma língua forçada, uma língua de quem sempre bate com a porta na cara. Tudo que rodeia é inacessível: a biblioteca, o livro, a língua, o dinheiro. A saída é ilícita.

II

“No te diré nunca cómo fui hundiéndome, día tras día, entre los hombres perdidos, ladrones y asesinos y mujeres que tienen la piel del rostro más áspero que cal agrietada”.


Una confesión negada. No y nunca acumulan una negativa que resbala, parecen querer decir todo lo contrario, porque fui hundiéndome y te repito outra vez “Y así, fui hundiéndome día tras día”, “Ahora cada uno de nosotros lleva un recuerdo terrible que es una bazofia de tristeza. Ayer... hoy .. mañana... Hundiéndome día tras día” y otra vez..

La repetición acamala el dolor, lo restaura y lo aleja. De vivir entre "Las fieras", de sufrir, lo único que resiste es una estrella Tacuara, una posibilidad de alegría perdida, el testigo del fracaso y la destinataria de esta confesión tan negada y tan entregada.
“Un tango antiguo nos recuerda un momento carcelario, otros la noche del hallazgo de una mujer, otros un instante terrible de cuando andábamos en la mala.”

Habría outra forma de terminarlo? Esta confesión sin fin, este “contame tu condena, decime tu fracaso”, esta verborragia que sólo la entienden los que cruzaron alguna vez un dolor agudo, una decepción fatal, y hermana a los bandoneones y consuela el que se hunde y tiñe de lucidez nuestra profunda soledad.